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FID-BECK - ROLLINGONTHEFLOORLAUGHING

Prá especulação, desinformação e erros ortográficos tó-ká eu!

FID-BECK - ROLLINGONTHEFLOORLAUGHING

Prá especulação, desinformação e erros ortográficos tó-ká eu!

Por Rutger Bregman

Tradução de Aral Sevla

 

Como cada vez mais pessoas estão a ganhar dinheiro sem contribuírem qualquer coisa de valor.

Uma neblina  espessa envolve City Hall Park no amanhecer do dia 2 de Fevereiro de 1968. Sete mil trabalhadores do sector de saneamento de New York City formam um grupo coeso, o seu estado de espírito é rebelde. O porta-voz da União, John Delury, aborda a multidão a partir da capota de um caminhão. Quando ele anuncia que o prefeito se recusou à fazer mais concessões, a raiva da multidão ameaça transbordar. Assim que os primeiros ovos podres começaram a voar sobre a sua cabeça, Delury apercebeu-se de que o tempo para um compromisso havia-se esgotado. Tinha chegado a altura para tomar-se uma rota ilegal, a via proibida aos trabalhadores do sector de saneamento, pela simples razão de que o trabalho que eles fazem é demasiado importante.

Era a hora de lutar

No dia seguinte, havia lixo não recolhido por toda a Big Apple. Quase todas as equipes de lixo da cidade tinham ficado em casa. "Nós nunca tivemos prestígio, e isso nunca me incomodou antes," um homem do lixo é citado por um jornal local. "Mas isto incomoda-me agora. As pessoas tratam-nos como lixo. "

Quando o prefeito decidiu averiguar a situação dois dias depois, a cidade já estava engolfada de lixo, com mais de 10.000 toneladas adicionados todos os dias. O nauseante fedor começava a infiltrar-se  pelas ruas da cidade, e os ratos começaram a aventurar-se às partes mais requintadas da cidade. No espaço de apenas alguns dias, uma das cidades mais icónicas do mundo,  assemelhava-se repentinamente à uma favela. E pela primeira vez desde a epidemia de pólio de 1931, as autoridades da cidade declararam um estado de emergência.

Mesmo assim, o prefeito recusava-se à ceder, com a imprensa local ao seu lado, retratando os grevistas como narcisistas gananciosos. Demorou uma semana antes que se apercebessem da realidade: Os lixeiros estavam realmente determinados a ganhar. Num ato de desespero, os editores do New York Times estampavam: "Nova Iorque é impotente diante deles". "A maior das cidades deve render-se ou ver-se afundada na imundície."Após nove dias de greve, quando o lixo se tinha acumulado até 100.000 toneladas, os trabalhadores do saneamento obtinham o seu prémio. "A moral da história", a revista Time relatou mais tarde, "é que vale a pena fazer greves."

Rico sem levantar um dedo

Talvez, mas não em todas as profissões.

Imagine por exemplo, que todos os 100.000 lobistas de Washington entrassem em greve amanhã. Ou que cada contabilista fiscal em Manhattan decidisse ficar em casa. Parece improvável que o prefeito anunciasse um estado de emergência. Na verdade, é improvável que qualquer um destes cenários causassem muitos danos. A greve, digamos, de consultores de mídia social, operadores de telemarketing, ou operadores de alta frequência, talvez nem se tornasse numa notícia.

Quando se trata de recolhedores de lixo, porém, é diferente.  Qualquer que seja o modo que olhamos  para isto, eles fazem um trabalho que não podemos prescindir. E a dura verdade é, que existe um número crescente de pessoas que fazem trabalhos, os quais podemos muito bem passar sem eles. Se eles parassem de funcionar de repente o mundo não ficaria mais pobre, mais feio, ou de qualquer forma pior. Tome como exemplo, os trapaceiros de Wall Street que enchem os bolsos à custa de outros fundos de aposentadoria. Veja como os advogados astutos que podem preparar um processo empresarial que dure até ao fim dos tempos. Ou considere um brilhante escritor de anúncios que escreva o slogan do ano e coloque a competição completamente fora dos negócios.

Em vez de criarem riqueza, estes postos de trabalho na sua maior parte apenas movimentam-se ao redor.

Claro, não há nenhuma linha clara entre quem cria riqueza e aqueles que apenas a movimentam. Muitos postos de trabalho fazem as duas coisas. Não há como negar que o sector financeiro pode contribuir para a nossa riqueza e lubrificar as engrenagens de outros setores no processo. Os bancos podem ajudar a espalhar os riscos e apoiar pessoas com ideias brilhantes. E no entanto, estes dias os bancos tornaram-se tão grandes, que aquilo que muitos deles apenas fazem é circular a riqueza em redor, ou mesmo destruí-la. Em vez de crescer a torta, a expansão explosiva do sector bancário tem aumentado a sua própria quota.

Observemos a profissão de advocacia. Escusado será dizer que o papel de direito é necessário para um país prosperar. Mas agora que os EUA tenham 17 vezes mais advogados per capita do que o Japão, fará essa regra que a lei Americana seja 17 vezes mais eficaz? Ou que os americanos estejam 17 vezes mais protegidos? Longe disso. Alguns escritórios de advocacia até fazem mesmo de uma prática, a compra de patentes de produtos que não têm intenção de produzir, puramente com a intenção de processar outras pessoas por violação de direitos autorais.

Estranhamente, são precisamente os postos de trabalho que circulam o dinheiro ao redor - criando quase nada de valor tangível - que oferecem os melhores salários. É um estado fascinante, paradoxal das coisas. Como é possível que todos aqueles agentes de prosperidade - os professores, os policiais, os enfermeiros - recebam tão pouco, enquanto que os outros sem importância, supérfluos, e até mesmo circuladores destrutivos  ganhem tão bem?

Quando a ociosidade  era ainda um direito de nascença.

Talvez a história possa lançar alguma luz sobre este enigma.

Até há alguns séculos atrás, quase todo mundo trabalhava na agricultura. Isso criou uma afluente classe superior  livre para vadiar, vivendo dos seus ativos privados, e capaz de declarar guerras -  passatempos que não criam riqueza, mas na melhor das hipóteses circulam-na em volta, ou na pior das hipóteses destroem-na. Qualquer nobre de sangue azul estava orgulhoso deste estilo de vida, o que deu à alguns o risonho direito hereditário de encherem os bolsos à custa dos outros. Trabalho? Isso era para os camponeses.

Naqueles dias, antes da Revolução Industrial, uma greve dos agricultores teria paralisado toda a economia. Hoje em dia, todos os gráficos, diagramas e gráficos circulares, sugerem que tudo mudou. Como uma porção da economia, a agricultura parece marginal. Na verdade, o setor financeiro dos EUA é sete vezes maior do que o seu sector agrícola.

Então, isso significa que se os agricultores tivessem que entrar em greve, isto colocaria-nos  menos restringidos do que um boicote de banqueiros? (Não, muito pelo contrário.) E além disso, não tem a produção agrícola realmente crescido nas últimas décadas? (Certamente.) Bem, então, não estarão os agricultores ganhando mais do que nunca? (Infelizmente não.)
Você vê, numa economia de mercado, as coisas funcionam precisamente ao contrário. Quanto maior for o abastecimento, menor será o preço. E aí está a dificuldade. Ao longo das últimas décadas, o fornecimento de alimentos tem subido. Em 2010, as vacas americanas produziram duas vezes mais leite do que em 1970. Durante esse mesmo período, a produtividade do trigo também dobrou, e a de tomates triplicou. Quanto melhor se torna a agricultura, menos nós  estamos dispostos à pagar por ela. Estes dias, a comida nos nossos pratos é cada vez mais barata.

À Isto é que se chama progresso económico. Como as nossas fazendas e fábricas tornaram-se mais eficientes, elas foram responsáveis ​​por uma parcela cada vez menor da nossa economia. E quanto mais produtivas a agricultura e as fábricas se tornaram, menos pessoas foram empregadas. Ao mesmo tempo, este deslocamento gerou mais trabalho no sector dos serviços. No entanto, antes que conseguisse-mos arranjar um emprego neste novo mundo de consultores, chefes executivos, contabilistas, programadores, conselheiros, corretores, médicos e advogados, era necessário primeiro adquirir as credenciais adequadas.

Este desenvolvimento tem gerado uma imensa riqueza.

Ironicamente,  isto também tem criado no entanto, um sistema em que um maior número de pessoas possam ganhar dinheiro sem contribuírem nada de valor tangível para a sociedade. Chama-se o paradoxo do progresso: Aqui na terra da abundância, quanto mais ricos e mais astutos formos, mais dispensáveis nos tornamos.

Quando os banqueiros paralisaram

"ENCERRAMENTO DE BANCOS"

Em 4 de Maio de 1970, este aviso apareceu no Irish Independent. Após prolongadas, mas infrutíferas negociações sobre os aumentos de salários que não conseguiram acompanhar a inflação, os funcionários do banco da Irlanda decidiram entrar em greve.

Dum momento para o outro, 85% das reservas do país foram encerradas. Com todas as indicações sugerindo que a greve poderia durar algum tempo, as empresas em toda a Irlanda começaram a acumular dinheiro. Depois de duas semanas de greve, The Irish Times informava que metade dos 7.000 banqueiros do país já haviam reservado voos para Londres em busca de novos trabalhos.

No início, os especialistas previram que a vida na Irlanda chegaria à um impasse. Em primeiro lugar, suprimentos de dinheiro iriam escassear, em seguida o comércio estagnaria, e finalmente, o desemprego iria explodir. "Imagine todas as veias do seu corpo de repente, encolhendo e desfalecendo", assim descreveu um economista o medo que prevalecia, "e nós podemos começar a ver como os economistas concebem paralisações bancárias." Dirigimo-nos para o verão de 1970, com a Irlanda preparando-se para o pior.

E então algo de estranho aconteceu. Ou, mais precisamente, nada aconteceu.

Em Julho, o The Times da Inglaterra informou que os "números e tendências que estão disponíveis indicam que a disputa não tem tido até agora, um efeito adverso sobre a economia ." Alguns meses mais tarde, o Banco Central da Irlanda elaborou o saldo final . "A economia irlandesa continuou a funcionar por um período razoavelmente longo, com os seus principais bancos de compensação fechados  para o negócio", concluiu o Times. Não só isso, a economia continuou a crescer.

No final, a greve duraria em todo, seis meses - 20 vezes mais longa do que a greve dos lixeiros de  Nova Iorque. Mas, enquanto que do outro da bacia um estado de emergência foi declarado após apenas seis dias, a Irlanda continuou ainda forte depois de seis meses sem banqueiros. "Eu não consigo lembrar-me a principal razão da greve dos banqueiros", um jornalista irlandês refletiu em 2013, "foi porque ela não teve um impacto debilitante na vida diária."

Mas, sem banqueiros, como é que eles arranjaram dinheiro?

Algo bastante simples: O irlandês começou a emitir o seu próprio dinheiro. Após os encerramentos dos bancos, eles continuaram a passar cheques uns aos outros, como de costume, a única diferença sendo que eles não podiam mais ser sacados no banco. Em vez disso, um outro comerciante em ativos líquidos - o pub (bar) irlandês - entrou na cena para preencher o vazio. Numa altura em que os irlandeses ainda paravam para uma cerveja no seu pub local, pelo menos três vezes por semana, todos - e especialmente o barman - tinham uma boa ideia de quem poderia ser confiável. "Os gerentes destas lojas e casas públicas tinham um alto grau de informação sobre os seus clientes", explica o economista Antoin Murphy. "Uma pessoa não despende anos à servir bebidas à um cliente sem descobrir algo acerca dos seus recursos líquidos."

Repentinamente, as pessoas forjaram um sistema monetário radicalmente descentralizado, com 11.000 pubs do país funcionando como ponto-chave e confiança básica no seu mecanismo subjacente. Quando os bancos finalmente reabriram em Novembro, os irlandeses tinham imprimido uma quantia incrível de £ 5 bilhões (de Libras) em moeda caseira. Alguns cheques tinham sido emitidos por empresas, outros foram rabiscadas nas costas das caixas de charuto, ou até mesmo em papel higiénico. Segundo os historiadores, a razão pela qual os irlandeses foram capazes de gerir tão bem sem os bancos, foi tudo devido à sua coesão social.

Então, não houve nenhum problema?

Sim, claro que houve problemas. Como aquele com o tipo que comprou um cavalo de corrida à crédito e depois pagou a dívida com o dinheiro que ele ganhou quando o seu cavalo ficou em primeiro lugar - basicamente, jogou com o dinheiro de outra pessoa. Parece-se muito com o que os bancos fazem agora, mas numa escala muito menor. E durante a greve, as empresas irlandesas tiveram bastante dificuldade em adquirir capital para grandes investimentos. Na verdade, o próprio fato de que, para as pessoas iniciarem o do-it-yourself bancos, torna patentemente claro que eles não poderiam passar sem algum tipo de setor financeiro.

Mas o que eles poderiam perfeitamente passar sem, era aquela fumaça e espelhos, todos os investimentos arriscados, os arranha-céus cintilantes, e os bónus altíssimos pagos dos bolsos dos contribuintes. "Talvez, apenas talvez", o autor e economista Umair Haque conjetura, "os bancos precisam de pessoas muito mais do que as pessoas precisam de bancos."

Outra forma de tributação

Que contraste com aquela outra greve de dois anos antes e 3.000 milhas de distância. Onde os nova-iorquinos encaravam-se em desespero, como a sua cidade deteriorada num depósito de lixo, os irlandeses em vez, tornaram-se os seus próprios banqueiros. Onde Nova Iorque estava mirando para o abismo depois de apenas seis dias, na Irlanda as coisas ainda estavam indo sem dificuldades, mesmo depois de seis meses.

Vamos deixar uma coisa bem clara, no entanto. Ganhar dinheiro sem criar qualquer coisa de valor não é nada fácil. É preciso talento, ambição e cérebros. E o mundo bancário está repleto de mentes inteligentes. "A genialidade dos grandes investidores especulativos é ver o que os outros não conseguem enxergar mais cedo", explica o economista Roger Bootle. "Esta é uma habilidade. Mas também é a capacidade de manter-se na ponta dos pés, equilibrando-se sobre uma perna, enquanto que balança um pote de chá em cima da sua cabeça, sem o mais pequeno derramamento ".

Noutras palavras, o facto de que algo é difícil não o torna automaticamente valioso.

Nas últimas décadas, essas mentes inteligentes inventaram todo o tipo de produtos financeiros complexos, que não criam riqueza, mas destroem-na. Estes produtos são essencialmente, como um imposto sobre o resto da população. Quem é que você acha que está pagando por todos aqueles ternos sob medida, mansões e iates de luxo? Se os banqueiros não estão gerando o valor subjacente pelos seus próprios meios, então ele tem que vir de algum lugar - ou de uma outra pessoa. O governo não é o único redistribuindo riqueza. O setor financeiro também o faz, mas sem um mandato democrático.

O ponto de fundo é que a riqueza pode ser concentrada nalgum lugar, mas isso não significa também, que é onde ele está sendo criado. Isto é tão verdade para o seu antigo proprietário feudal, assim como é para o atual CEO da Goldman Sachs. A única diferença é, que os banqueiros têm às vezes um lapso momentâneo e imaginam-se como os grandes criadores de toda esta riqueza. O senhorio que estava tão orgulhoso de viver à custa do trabalho dos seus camponeses não sofria de tais ilusões.

Empregos de Merda

E pensar que as coisas poderiam ter sido tão diferentes.

Quase há um século atrás, o economista John Maynard Keynes famosamente previu que iríamos trabalhar quinze horas por semana, por volta do ano de 2030. Ele pensava que a nossa riqueza e prosperidade aumentaria dramaticamente e que se iria converter a maior parte daquela riqueza em lazer. Keynes certamente que não foi o único a acreditar, que era apenas uma questão de tempo até que se resolvesse o "problema económico." Bem dentro da década de 1970, economistas e sociólogos previam que "o fim do trabalho" estava próximo.

Na realidade, nada daquilo aconteceu. Nós somos muito mais prósperos, mas não estamos exatamente nadando num mar de tempo livre. Muito pelo contrário. Estamos todos trabalhando mais do que nunca. Muitas pessoas explicam essas circunstâncias, assumindo que usamos dinheiro para comprar coisas que não precisamos, tentando impressionar às pessoas que não gostamos.  Noutras palavras: sacrificamos o nosso tempo livre no altar do consumismo.

Mas há uma parte do puzzle que não se encaixa. A maioria das pessoas não desempenham qualquer papel na produção de capas de iPhone com toda a sua panóplia de cores, shampoos exóticos contendo extratos botânicos, ou Mocha Cookies Crumble Frappuccinos. A nossa dependência do consumo é facilitada principalmente pelos robôs e escravos assalariados do Terceiro Mundo. E embora a capacidade de produção agrícola e de fábricas tenha crescido exponencialmente nas últimas décadas, o emprego nessas indústrias caiu. Então é realmente verdade que o nosso estilo de vida sobrecarregado resume-se totalmente ao consumismo incontrolado?

David Graeber, um antropólogo da London School of Economics, acredita que há algo mais acontecendo. Há alguns anos atrás, ele escreveu uma peça fascinante que apontava a culpa, não para as coisas que compramos, mas para o trabalho que fazemos. É apropriadamente intitulado,  "Sobre o Fenómeno dos Empregos de Merda."

Na análise de Graeber, inúmeras pessoas passam as suas vidas de trabalho inteiras fazendo trabalhos que consideram inúteis, trabalhos como operador de telemarketing, gerente de recursos humanos, estrategista de mídia social, consultor de relações públicas, e toda uma série de posições administrativas em escritórios hospitalares, universidades e governo. "Empregos de Merda", Graeber chama-los. Eles são tipos de trabalhos, que até mesmo as pessoas que os executam admitem de serem em essência, supérfluos.

Quando eu escrevi pela primeira vez um artigo sobre este fenómeno, ele desencadeou uma pequena inundação de confissões. "Pessoalmente, eu preferiria fazer algo que fosse verdadeiramente útil", respondeu um corretor, "mas eu não poderia lidar com o corte de pagamento." Ele também descreveu o seu " incrivelmente talentoso antigo colega com um Ph.D. em física ", que desenvolve tecnologias de deteção de câncer, e" ganha muito menos do que eu, é deprimente." Mas claro, que o seu trabalho passe a servir à um interesse público importante e requer muito talento, inteligência e perseverança não significa automaticamente, que você passe a ser remunerado em conformidade.

Ou vice-versa. Será uma coincidência que a proliferação de empregos de merda bem pagos coincidiram com uma fase de grande expansão do ensino superior e uma economia que gira em torno de conhecimento? Lembre-se, que ganhar dinheiro sem criar qualquer coisa de valor não é fácil. Para começar, você tem que memorizar alguns importantes e expressivos jargões, mas fúteis na sua essência. (Crucial quando participando em reuniões estratégicas de multi- setores de pressão de grupo, debatendo o valor adicional para exarcebar as funções de várias redes sociais.) Quase qualquer pessoa pode recolher lixo, mas uma carreira na banca está reservada para uns poucos selecionados.

 Num mundo que se está tornando cada vez mais rico, onde as vacas produzem mais leite e robôs produzem mais coisas, existe mais espaço para amigos, família, serviços à comunidade, ciência, arte, deporto, e todas as outras coisas que fazem a vida valer a pena. Mas também há mais espaço para bobagem. Enquanto nós continuamos a estar obcecados com o trabalho, trabalho e mais trabalho (até mesmo, quando atividades úteis são cada vez mais automatizadas ou terceirizadas, o número de postos de trabalho supérfluos só vão continuar a crescer. Muito parecido com o número de gestores no mundo desenvolvido, que tem crescido ao longo dos últimos 30 anos sem fazerem-nos um centavo mais ricos. Pelo contrário,  estudos mostram que os países com mais gerentes são realmente menos produtivos e inovadores. Numa pesquisa com 12.000 profissionais efetuada pela Harvard Business Review, metade afirmaram, que sentiam que o seu trabalho não tinha "sentido e significado", e um número igual não foram capazes de se relacionarem com a missão das suas empresas. Outra pesquisa recente revelou que mais de 37% dos trabalhadores britânicos pensam que têm um emprego de merda.

De nenhuma maneira são todos estes novos postos de trabalho no setor de serviços, inúteis - longe disso. Olhe para a saúde, educação, serviços de bombeiros e da polícia e encontraremos muitas pessoas, que vão para casa todos os dias sabendo, que apesar dos seus salários modestos, eles fizeram do mundo um lugar melhor. "É como se eles estivessem a ser mandados", Graeber escreve: "Você começa por ter um emprego de verdade! E em cima disto, você tem de ter a coragem de aceitar, que as suas pensões e os seus cuidados médicos também sejam de classe média."

Há uma outra maneira

O que torna tudo isso especialmente chocante é que isso está acontecendo num sistema capitalista, num sistema baseado em valores capitalistas como a eficiência e a produtividade. Enquanto que os políticos sublinham incessantemente a necessidade de reduzir o tamanho do governo, eles permanecem em grande parte silenciosos enquanto que o número de empregos de merda vai escalando. Isso resulta em cenários em que por um lado, os governos cortam empregos úteis em setores como a saúde, educação e infra-estrutura - resultando em desemprego - enquanto que no outro, milhões são investidos na indústria de formação de desemprego e vigilância, cuja eficácia tem sido refutada.

O mercado moderno está igualmente desinteressado na utilidade, qualidade e inovação. Tudo o que realmente interessa é o lucro. Às vezes, isso leva à contribuições maravilhosas, às vezes não. Desde o telemarketing até aos consultores fiscais, há uma justificação sólida para a criação de um emprego de merda após outro: Você pode ganhar uma fortuna sem nunca produzir coisa alguma.
Nesta situação, a desigualdade só agrava o problema. Quanto mais riqueza for concentrada na parte superior, maior a demanda por advogados corporativos, lobistas e operadores de alta frequência. A procura não existe num vácuo, afinal de contas;  ela é o produto de uma negociação constante, determinada por leis e instituições de um país, e, é claro, pelas pessoas que controlam os cordões da bolsa.

Talvez esta também seja uma pista, porquê que as inovações dos últimos 30 anos - um período de  desigualdade alarmante - não satisfizeram as nossas expectativas. "Queríamos carros voadores, em vez temos 140 caracteres", zomba Peter Thiel, intelectual residente do Silicon Valley. Se o pós-guerra nos deu invenções fabulosas como a máquina de lavar, a geladeira, o space shuttle e a pílula, ultimamente têm sido iterações ligeiramente melhoradas  do mesmo telefone que compramos há um par de anos atrás.

Na verdade, tornou-se cada vez mais rentável se não inovarmos. Imagine a quantidade de progresso que já perdemos, porque milhares de mentes brilhantes têm desperdiçado o seu tempo sonhando com produtos financeiros hiper complexos, que são fundamentalmente, apenas destrutivos. Ou passaram os melhores anos das suas vidas duplicando produtos farmacêuticos existentes de uma forma que é infinitamente diferente, mas suficiente para justificar um novo pedido de patente por um advogado inteligente, permitindo assim, que um brilhante departamento de relações públicas possa lançar uma campanha de marketing totalmente nova para uma droga não-tão-nova em folha.

Imagine se todo esse talento tivesse sido investido, não na mudança de riqueza ao redor, mas em criá-la. Quem sabe, nós já poderiamos ter tido jetpacks, ter construído cidades submarinas, ou encontrado a cura para o câncer.

Friedrich Engels, um amigo próximo de Karl Marx, descreveu a "falsa consciência" na qual as classes trabalhadoras da sua época - o "proletariado" - haviam sido vítimas. De acordo com Engels, o trabalhador de fábrica do século 19 não se revoltou contra a elite latifundiária, porque a sua visão do mundo estava obscurecida pela religião e nacionalismo. Talvez a sociedade esteja presa num barranco comparável hoje em dia, só que desta vez no topo da pirâmide. Talvez algumas dessas pessoas estejam com a sua visão ofuscada por causa de todos os zeros nos seus salários, os bónus magníficos, e os planos de aposentadorias confortáveis. Talvez o volume de uma carteira gorducha possa provocar uma falsa consciência semelhante: a convicção de que se está produzindo algo de grande valor, porque se ganha demasiado.

Seja qual for o caso, a forma como as coisas estão não é a maneira que elas têm que ser. A nossa economia, os nossos impostos, e as nossas universidades podem ser todas reinventadas de forma a tornarem-se numa inovação real e em criatividades produtivas. "Não temos que esperar pacientemente por uma mudança cultural lenta", o economista dissidente William Baumol desafiou mais de 20 anos atrás. Não temos que esperar até que a aposta com o dinheiro dos outros deixe de ser rentável; até que os trabalhadores do saneamento, agentes policiais e enfermeiros ganhem um salário decente; e até que génios da matemática comecem mais uma vez a sonhar com a construção de colónias em Marte em vez de iniciarem os seus próprios fundos de investimento especulativo.

No fim de contas, não é o mercado ou a tecnologia que decide o que tem valor real, mas sim a sociedade. Se queremos que este século seja aquele para que todos nós fiquemos mais ricos, então precisamos de libertar-nos do dogma, de que todo o trabalho é significativo. E enquanto que estamos no assunto, vamos também livrar-nos da falácia de que um salário mais alto é automaticamente um reflexo do valor social.

Então podemo-nos aperceber, que em termos de criação de valor, ele simplesmente não paga para ser-se um banqueiro.

Nova Iorque, 50 anos depois

Meio século depois da greve, a Big Apple parece ter aprendido a lição. "Todo mundo em Nova Iorque quer ser um lixeiro", dizia uma recente manchete de jornal. Hoje em dia, as pessoas que cuidam da megacidade,  ganham um salário invejável. Depois de cinco anos na folha de pagamento, eles podem levar para casa tanto quanto $ 70.000, mais horas extras e vantagens. "Eles mantêm a cidade em funcionamento," um porta-voz do Departamento de Saneamento explicou no artigo. "Se eles fossem parar de trabalhar, mesmo que brevemente, tudo em Nova Iorque chegaria à um impasse."

O jornal também entrevistou um trabalhador de saneamento da cidade. Em 2006, Joseph Lerman, então com 20 anos de idade, recebeu um telefonema da cidade informando-o que ele podia apresentar-se ao serviço como um recolhedor de lixo. "Eu senti-me como se tivesse ganho o jackpot", ele relata. Hoje em dia, Lerman levanta-se às 4:00 todas as manhãs para transportar sacos de lixo em turnos até de 12 horas. Para os seus companheiros nova-iorquinos, é lógico que ele seja bem pago pelo seu trabalho. "Honestamente", o porta-voz da cidade sorri, "esses homens e mulheres não são conhecidos como os heróis de New York City por nada."

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